Pela primeira vez no Estado, um hospital que é referência no tratamento aos pacientes de doença de Chagas reúne profissionais experientes no tema e acadêmicos interessados nas pesquisas já realizadas na região Norte. Foi neste cenário que aconteceu em Belém, nesta terça-feira, 21, o primeiro Simpósio em Doença de Chagas do Hospital de Clínicas Gaspar Vianna. Durante todo o dia, rodas de conversa, palestras e mesas redondas foram realizadas no intuito de discutir, avaliar e propor novas estratégias para favorecer a prevenção, o controle e o tratamento da doença, que concentra mais de 80% dos casos brasileiros só no Pará.
Durante a abertura do Simpósio, a médica cardiologista Dilma Souza, responsável pelo ambulatório de Chagas do Hospital de Clínicas, elogiou o empenho dos aproximadamente 200 participantes do evento e afirmou que isso indica a busca pela eficiência no tratamento dos pacientes chagásicos crônicos e ao mesmo tempo reflete um trabalho que já vendo sendo feito desde 2006, por ocasião da criação do Programa Estadual de Controle da Doença de Chagas (PECDCh), com a missão de conduzir as atividades de vigilância e controle do agravo, num trabalho conjunto entre Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa) e as instituições que mantém o modelo de hospital-ensino, como o de Clínicas e o Barros Barreto.
A crescente associação da transmissão oral da doença ao ser humano também sensibiliza a vice-presidente da Sociedade Regional de Cardiologia e também secretária adjunta de Estado de Saúde, Heloisa Guimarães. Durante o Simpósio, ela relembrou uma temeridade da qual foi testemunha durante algumas ações de saúde realizadas pelo Pro Paz em 2011 na Ilha do Combu, localizada ao lado oposto de Belém. Segundo ela, ao detectar que mais de 50% pessoas examinadas apresentaram alterações nos batimentos cardíacos, chegou à conclusão de que os moradores já conheciam o inseto barbeiro e que não sabiam da gravidade dessa “convivência”. “Foi dessa forma que identificamos o nível de informação desse povo e iniciamos uma série de esclarecimentos sobre a doença no mesmo ano. Mas até convencer de que um alimento tão querido como o açaí, que se não for batido com higiene, faz mal, aí é um grande percurso de convencimento”, afirmou a secretária adjunta.
A questão do convencimento também foi levada em conta pelo secretário de Estado de Saúde Pública, Helio Franco, que ressaltou a resistência dos produtores em proceder ao chamado “escaldamento” do fruto do açaí, quando os caroços são mergulhados em água quente, numa temperatura de 80°C, para eliminar as bactérias e principalmente as contidas nas fezes do barbeiro, inseto transmissor da doença de Chagas.“Essa questão cultural representa o maior dos desafios para o grupo envolvido na prevenção da doença. Contudo, a área de saúde não deve arcar com isso sozinha. Os produtores e os manipuladores devem colaborar”, afirmou, ao ressaltar que não faltam informações sobre boas práticas de higiene em locais de venda de açaí, como a limpeza das mãos e uso de detergente neutro para lavar os utensílios e equipamentos; a escolha de um piso de fácil limpeza e proteção para as fiações, cabelos, mãos e corpo.
Em tom confessional, a diretora do Departamento de Vigilância Sanitária (Devisa) de Belém, Patrícia Borges, reafirma que a resistência da maioria dos manipuladores é o grande empecilho para se garantir um açaí de qualidade na cidade. Segundo ela, o trabalho de fiscalização e capacitação dos batedores de açaí é feito regularmente. “Se os locais de venda não estiverem adequados aos padrões de higiene e condições sanitárias exigidos, podem ser interditados e o proprietário intimado a se capacitar”, diz. Caso o proprietário já tiver sido treinado por algum órgão, terá de deixar a comodidade de lado e passar por reciclagem, só podendo voltar a trabalhar depois que estiver de acordo com as normas da Vigilância Sanitária.
Além de Patrícia, participam do evento Érica Tatto, da Secretaria de Saúde do município de Porto Alegre (RS); Soraya Oliveira, de Minas Gerais; Dilma Souza, cardiologista dos hospitais de Clínicas e Barros Barreto; Ana Maria Guaraldo, da Unicamp, e pesquisadores do Instituto Evandro Chagas, além da diretora do hospital de Clínicas, Ana Lydia Cabeça; a infectologista Rita Medeiros, do hospital Barros Barreto; a coordenadora estadual do Programa de Doença de Chagas, Elenild Góes; e uma dezena de médicos residentes em Cardiologia do Hospital de Clínicas.
Casos em 2012
Atualmente o Pará é responsável por 80% dos registros da Doença de Chagas no Brasil. Só este ano, já são 35 casos confirmados e uma morte de paciente oriundo de São Miguel do Guamá. Em 2011 foram 141 ocorrências, sendo que muitos ocorrem por transmissão oral, já que os picos de registros coincidem com a safra do açaí, o que tem levado muitos pesquisadores do assunto a suspeitarem que há uma relação direta da incidência da doença com o consumo do fruto, quando manipulado de maneira incorreta.Elenild Góes já deixou claro que o aumento de casos também reflete o esforço das autoridades no combate às subnotificações e a favor de um diagnóstico mais precoce possível. A intenção é que pacientes com casos positivos sejam tratados antes de evoluírem para a fase crônica. Febre, calafrio, manchas vermelhas na pele, dores de cabeça e no rosto e enjôos estão entre os sintomas clássicos.
O programa de Doença de Chagas no Pará foi criado há cinco anos e, desde então, o número de casos se mantém em torno de 100. O ano de 2009 foi o recordista do número de casos, com 241. Oeiras do Pará, Abaetetuba e Breves são as cidades que estão no topo nos números de incidência. Na capital, os bairros do Jurunas, Pedreira e Guamá os que apresentam maior maior número de casos da doença.
Fonte: SESPA
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